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Na companhia dos livros não é possível ficar sozinho

13 de novembro de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo recebeu os escritores Luiz Ruffato e Cristovão Tezza para falarem sobre seus livros “O Verão Tardio” (Cia das Letras) e “A Tensão Superficial do Tempo” (Todavia), respectivamente. Essa foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 5 de agosto de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

O diálogo teve início com os escritores detalhando sobre suas obras. Cristovão Tezza relatou que “A Tensão Superficial do Tempo” traz a história de uma derrocada emocional do personagem que se chama Cândido. “O nome dá a ideia de ingenuidade, de um apolítico que não se envolve. Então, ele entra no coração da discussão com a paixão por uma mulher de um procurador que está envolvido na história da lava-jato”, adiantou.

Sobre “O Verão Tardio”, Luiz Ruffato lembrou que a sua ideia inicial era discutir uma a incapacidade de diálogo. “Isso é uma coisa que me incomodava profundamente e eu não falo só no ponto de vista individual, eu pensava como que nós não conseguíamos estabelecer diálogo entre classes sociais, entre as pessoas de uma maneira mais generalizada, um diálogo coletivo. O livro é um pouco a expressão disso”. O autor também reforçou que a narrativa não está relacionada à sua vida particular. “São questões de grupos que estão a minha volta e, que de alguma maneira, a gente senta para escrever sem que você tenha noção clara disso, mas você está representando alguns grupos de interesses, de discussão, de preocupações”.

No livro de Ruffato, o protagonista, Oséias, é um sujeito mais ou menos de 50 e poucos anos que se aposenta em São Paulo como vendedor de produtos agropecuários e volta à sua cidade Natal, Cataguases. Essa cidade, para ele, é uma espécie de busca de um passado. Contudo, como o autor lembrou, não é possível alcançar o passado, então o presente que o protagonista se depara é um presente. “Não só de Cataguases, eu acho que é um presente do Brasil, que é o presente da violência urbana, da degradação urbana, das drogas, do fundamentalismo cristão. Trata desses aspectos que são da política, como que essa micropolítica vai interferir na vida das pessoas, na vida de cada um que nem tem ideia porque elas estão agindo de determinadas maneiras”, refletiu.

Referente ao título de “A Tensão Superficial do Tempo”, Cristovão Tezza explica que remete à ideia de alguém que não consegue vencer a película do tempo.  “Cândido não consegue voltar para casa enquanto ele não resolver a questão do silêncio da mulher. A partir disso,  me deu aquele estalo, a tensão superficial do tempo, ele está esmagado pela tensão do tempo, que é também o Brasil, que é um país que parece que não consegue romper a película do tempo”, disse. Para o autor, isso ocorre porque “o tempo puxa para trás, sempre anda para trás”.

Livro é companhia

Luiz Ruffato ainda contou que nunca fica sozinho. “Eu tenho quase cinco mil livros em casa. Não há solidão que aguente cinco mil livros. Mesmo quando estou me sentindo sozinho, eu não estou sozinho, eu pego um livro e vou ler”. Para Cristovão Tezza, “a literatura trabalha com essa brincadeira que é a maneira, os modos de representar a realidade”.

A importância da linguagem poética também foi abordada por Luiz Ruffato. “Eu acho que se eu não usasse a linguagem poética, que eu uso muito, os assuntos que eu trato talvez ficassem um tanto quanto problemáticas porque são duros.  Acho que eu sempre usei a mediação da linguagem poética, desde “Eles Eram Muitos Cavalos”, até esse livro mais recente. Eu nunca deixei de flertar com um mundo mais onírico”, confessou. Apesar de dizer ser um apaixonado pela linguagem poética, o autor disse que também gosta muito de experimentar a linguagem. Assim como Tezza, ele acredita que cada livro exige uma determinada forma. “Você tem um determinado assunto para ser discutido e só tem uma maneira de ele ser discutido. A gente acerta ou não se conseguir fazer com que essas combinem. Por isso, não se pode definir a linguagem de um livro antes de sua elaboração. Na verdade, o que determina como vai ser é o que vai ser escrito ali no momento”.

Essa conversa pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=KbJDVBqTdmE