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Nós morremos em você, Kathlen Romeu, por Carpinejar

9 de junho de 2021

 

UM BRASIL INOMINÁVEL

Fabrício Carpinejar

 

Você está grávida, feliz, tem 24 anos, é designer de interiores, recém formada, decidindo uma casa para morar com o namorado, juntando as reservas para começar um casamento, curtindo a gestação de 14 semanas, escolhendo o nome do seu bebê, batendo o martelo entre Maya ou Zyon.

 

Você está no auge da sua vida, com tudo para experimentar, construir, amar, conquistar. Você está caminhando de braços enganchados com a sua avó na sua própria comunidade, em Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio, para conferir as pendências de seus clientes na firma.

 

Cumprimenta os vizinhos na tarde de terça (8/6), sorri com os comentários da vó a respeito dos seus planos, e, do nada, é fuzilada. Do nada, sem aviso, sem poder se defender ou se preparar para o desconhecido, tomba, vítima de uma bala perdida de uma operação da Polícia Militar.

 

Você desaparece, os seus sonhos deixam de existir de repente, as palavras são reduzidas a um pedido inconsolável de socorro.

 

Você morre, sem nunca descobrir se seria um menino ou uma menina. Seu filho morre sem nunca descobrir como era a sua mãe.

 

Nós morremos em você, Kathlen Romeu. Somos assassinados em você.