fbpx

O Brasil que não aconteceu

7 de julho de 2021

Por Laura Rossetti (*)

O Sempre Um Papo dá sequência à programação de 2021, ano em que comemora 35 anos de realização, com mais uma transmissão ao vivo pelas redes sociais do projeto. O convidado desta terça-feira, 6 de julho, foi o jornalista e escritor paranaense Laurentino Gomes, para falar com Afonso Borges sobre o livro “Escravidão – Volume II”, lançado em junho deste ano pela Globo Livros.

Durante a live, Laurentino explicou que planejou, desde o início, dividir em uma trilogia a história da escravidão, de modo que os livros sigam uma ordem cronológica. O volume I da série, publicado em 2019, começa contando sobre o primeiro leilão de cativos em Portugal e termina com a morte do líder quilombola brasileiro Zumbi Dos Palmares, no final do século XVII. A obra apresenta ainda os alicerces do regime escravista. “Eu mostro também (…) como foi a expansão portuguesa, as grandes navegações, como a escravidão financiou todos os empreendimentos portugueses”, afirma o autor.

Já no segundo livro há uma mudança geográfica importante: o foco deixa de ser a África e passa a ser o cenário brasileiro. “O segundo volume trata do século XVIII: da corrida do ouro, dos diamantes em Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, da expansão da fronteira brasileira”, explica o autor, afirmando que o Brasil – delimitado até então pelo Tratado de Tordesilhas – dobrou de tamanho no decorrer deste século. “(No livro), eu falo também sobre os costumes, religiões, a família escrava, o papel da mulher, as fugas e quilombos”, completa.

Laurentino Gomes contou ainda que o último livro da série se debruçará sobre o legado da escravidão no Brasil. Segundo o autor, importantes abolicionistas brasileiros – como Luís Gama, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco – defendiam a necessidade de que houvesse duas abolições no país. A primeira delas dizia respeito à proibição da compra e venda de escravos, o que ocorreu em 1888. Já a segunda, que nunca foi realizada, referia-se à efetiva incorporação de ex-escravos e seus descendentes na sociedade brasileira, concedendo a eles o devido acesso a terras, educação, saúde e oportunidades no geral.

“Existe um projeto de Brasil abortado no século XIX, um Brasil que não aconteceu”, afirma o autor, atribuindo a isto a origem de muitos dos problemas que o país enfrenta atualmente. Dentre os que foram citados, está a nítida segregação entre negros e brancos no país, que se revela não apenas geograficamente, mas também quando se observa, por exemplo, a pequena quantidade de negros ocupando cargos políticos ainda hoje.

Para Laurentino, resolver essa dívida histórica com a população negra é o mais importante assunto do ponto de vista estratégico do Brasil. “É uma questão de investimento no futuro. Enquanto nós não fizermos essa segunda abolição – que significa dar oportunidades para que a ‘Áfirca brasileira’ se realize plenamente – nós vamos ser um país pobre, que não inova e um país sem capital humano”.

Apesar dos problemas expostos, Laurentino Gomes terminou o Sempre Um Papo com uma mensagem de esperança. “Acho que existe hoje um discurso cínico no ar de que o Brasil não funciona, que as coisas são assim mesmo, que não adianta sonhar, não adianta lutar. E eu diria que não. Se você observar a história, o Brasil enfrentou grandes lutas no passado, algumas bem-sucedidas, e outras não, mas a gente vive da esperança”.

Estilo próprio

Perguntado por Afonso sobre a metodologia linguística utilizada na elaboração de seus livros, Laurentino respondeu que procura sempre fugir da narrativa meramente cronológica e linear, pois, para ele, isso faz a história ficar monótona. “Eu prefiro construir o livro na forma de ensaios, como se fossem pequenas reportagens, que podem ser lidas isoladamente”. Dessa maneira, ele escreve os capítulos como se fossem peças de um quebra-cabeça, de modo que, ao final do livro, o leitor tenha uma boa compreensão do conteúdo.

Além disso, o autor também conta que tem preferência por escrever acontecimentos específicos para apresentar ao leitor um tema amplo. “Se eu começasse (os textos) de um ponto de vista mais acadêmico (…), fazendo uma discussão intelectual a respeito das contradições existentes nas revoluções do século XVIII, provavelmente eu iria afastar o leitor, especialmente o leitor mais leigo”. Por isso, Laurentino geralmente introduz uma temática através da descrição de um cenário, uma pintura, de personagens ou de um determinado episódio e, a partir daí, desenvolve e aprofunda a narrativa.

Esta foi mais uma edição do #SempreUmPapoEmCasa, com acesso gratuito e tradução simultânea em Libras. Acesse a gravação completa da conversa nas redes sociais do Sempre Um Papo: Instagram, Facebook e YouTube.

*Estagiária sob a supervisão da jornalista Jozane Faleiro

Frases

“Existe uma ideologia escravista que permanece e se desdobra no Brasil na forma de racismo, de preconceito racial”. – Laurentino Gomes

“Tem uma série de Áfricas brasileiras que estão codificadas (na arte barroca) e que só um olhar atento ou um olhar treinado pode ver”. – Laurentino Gomes

“Existe um protagonismo branco colonizador e europeu que vende a ideia de que os africanos eram personagens secundários que não tinham contribuição nenhuma a não ser a força física de seus corpos negros”. – Laurentino Gomes

“Eu diria que nós temos ainda muitos capitães do mato no Brasil; essa profissão ainda não está totalmente extinta”. – Laurentino Gomes

“É uma atitude e autonegação dizer que o problema do Brasil é social e não racial (…). Estatisticamente, a imensa maioria dos pobres no Brasil é afrodescendente”. – Laurentino Gomes