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O colonialismo e a humilhação no Brasil

25 de agosto de 2021

Por Laura Rossetti (*)

A convidada o #SempreUmPapoEmCasa de terça-feira, 24 de agosto, foi a escritora e professora Marcia Tiburi. A conversa aconteceu em torno do  lançamento do livro “Complexo De Vira-Lata: Análise Da Humilhação Brasileira” (Civilização Brasileira). A transmissão do bate-papo ao vivo, ocorreu às 19h, através das redes sociais do Sempre Um Papo, que comemora 35 anos de realização em 2021.

Tiburi conta que a ideia de escrever o livro partiu da compreensão de que o “complexo de vira-lata”, expressão formulada por Nelson Rodrigues, no final dos anos 1950, tem relação direta com o sentimento de humilhação dos brasileiros. “O complexo de vira-lata se tornou um termo popular e muita gente usa esse conceito, mas raramente nós vimos pessoas questionando ou estudando o que isso poderia significar”, justifica.

Nesse sentido, a autora faz uso de conceitos da psicanálise, filosofia, história e outras áreas do conhecimento para analisar o modo como as pessoas são diminuídas em sua importância e valor. “Eu entendi que a humilhação é, na história da humanidade, a mais antiga tecnologia do poder. Ou seja, para o poder se constituir – seja ele dominação, seja violência -, ele precisa da humilhação”, avalia. Desse modo, o complexo de vira-lata estrutura a sociedade brasileira em nível econômico, social e político.

Falando da humilhação nas relações interpessoais, Tiburi dá o exemplo do machismo. “A violência doméstica dentro das estruturas familiares é muito marcada pela humilhação machista. Quando um homem xinga uma mulher, quando um homem espanca uma mulher, quando um homem ameaça espancar uma mulher, quando os pais ameaçam fazer isso contra os filhos, tem um jogo de poder que está em cena e é sempre baseado na humilhação”, exemplifica.

Além disso, a autora discute no livro as raízes coloniais brasileiras e a forma como elas agravam o sentimento de humilhação. “Nós precisamos nos liberar desse colonialismo, desse capitalismo, desse racismo, do machismo, do capacitismo e todos esses ‘ismos’ da opressão. Nós precisamos fazer o esforço objetivo, institucional, histórico e concreto, e precisamos fazer um esforço subjetivo, e aí entra a cultura, a literatura, as artes, a educação”, afirma.

Segundo a autora, o complexo de vira-lata é um traço exclusivo da sociedade brasileira. “Não existe essa formulação para falar da América Latina, nem dá pra falar disso nos Estados Unidos. Na França, se fala de complexo de tartaruga, mas que não é exatamente a mesma coisa, tem a ver mais com timidez do que com a sensação de ser humilhado”, explica. Por causa dessa marcante diferença entre os países, fora do Brasil, o livro será lançado com o título “Complexo de Colombo”. Nele, a questão do “vira-latismo” brasileiro é colocada em um lugar mais específico como exemplo histórico.

Tiburi encerrou a live afirmando que para se combater a dominação através da humilhação é preciso que haja “um grande despertar das populações, que sejam capazes de romper com estruturas e poderes pré-estabelecidos, ou seja, com parâmetros autoritários e totalitários que regem as nossas vidas”. Isso, segundo a autora, só é possível através da mobilização de toda a sociedade.

Além de “Complexo De Vira-Lata”, Marcia Tiburi é autora de outras obras que abordam importantes temáticas contemporâneas, como “Feminismo Em Comum: Para Todas, Todes E Todos” (Rosa dos Tempos, 2018) e “Delírio Do Poder: Psicopoder E Loucura Coletiva Na Era Da Desinformação“ (Record, 2019),. Acesse a gravação completa da conversa, que contou com tradução simultânea em Libras, no YouTube e Instagram do Sempre Um Papo.

*Estagiária sob a supervisão da jornalista Jozane Faleiro

Frases

“Rompendo com a lógica e a cultura da humilhação, teríamos uma sociedade melhor para se viver, uma sociedade democrática” – Marcia Tiburi

“A humilhação é um elemento inerente à violência simbólica e física”. – Marcia Tiburi

“A verdade é um parâmetro sem o qual não haverá nada” – Marcia Tiburi