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O livro é a verdadeira casa da humanidade

12 de março de 2021

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo abriu a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, realizando uma série de encontros com respeitados autores da atualidade. Um dos convidados foi o escritor português José Luís Peixoto para falar sobre o seu mais recente livro “Regresso à Casa” (Ed. Dublinense). Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 11 de março de 2021, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

Em seu processo criativo, José Luís Peixoto conta que é misterioso para com seus romances, só divulga informações após publicados os livros. “Para mim escrever um romance é sempre um pouco carregar um segredo, até porque eu sou muito supersticioso e não conto nada a ninguém, raramente conto o que que estou escrevendo”. 

Provocado por Afonso Borges, o autor afirmou que é muito difícil estabelecer fronteiras entre os gêneros, principalmente no que se refere a prosa e poesia. “Hoje em dia, a poesia já foi tantas coisas que eu acho difícil policiar essas fronteiras. Depois da poesia experimentalista, da poesia concreta, da poesia sonora, de a poesia ser tão polêmica e instigar tantas visões, não acho que seja muito fácil dizer que alguma coisa não é poesia”. 

Para o autor, poesia é uma condensação entre o que é mais fundo e mental em toda a literatura. “O fato dos textos poéticos serem normalmente mais curtos, obriga as palavras a segurarem um peso muito maior na poesia. E isso faz com que todos os elementos que existem em qualquer texto literário tenham de ser sublimados, tenham que ser elevados a sua potência mais aumentada. Mas dizer isso não significa dizer nada absolutamente específico e concreto, pois têm os critérios de cada um. No meu caso, este livro de poesia é poesia porque eu digo que é poesia”.

“Regresso à Casa” é um livro de poemas variados que aborda sobre a noção de múltiplas casas. “A casa é um espaço de muitos níveis. É o lugar onde nós nos sentimos confortáveis, é o nosso lugar, onde podemos descansar e nos estabelecer”, disse o autor. Para ele, os livros e a memória também se enquadram nessa concepção de casa, pois funcionam como um edifício ao qual pertencemos e sempre regressamos. “Os livros, eles próprios, também são como uma casa, uma casa que nós construímos ao longo do tempo, onde também colocamos as nossas experiências, as nossas memórias”.

Para concluir, José Luis Peixoto falou sobre o seu novo romance “Almoço de Domingo”. O enredo do livro surgiu da história de um homem que nasceu em 1931, é muito conhecido em Portugal, na mesma região a qual pertence Peixoto e que tinha o interesse em ter suas memórias registradas. “Eu não tinha muito interesse de escrever uma biografia, não porque eu tenha algo contra esse gênero, aliás eu gosto muito de ler biografias. Então, eu propus escrever um livro em que transformaria todas aquelas memórias em um romance e ele aceitou”. 

O autor relatou como essa experiência foi prazerosa para ele porque conseguiu imaginar como é ter 90 anos, como é estar nesse momento da vida e que desafios que isso traz. “Deu a oportunidade de eu escrever sobre a minha região, que era coisa que eu já fazia, mas a partir de um outro ponto de vista. Também deu a oportunidade de escrever sobre a família que também aconteceu de forma muito mais intensa. E, para mim, foi bastante terapêutico nesse período ter esse mundo onde eu podia também descansar de tudo isso que estamos vivendo e que, às vezes, acaba por ser um pouco claustrofóbico”. 

José Luis Peixoto também leu poemas do seu livro “Regresso à Casa”. Acompanhe a conversa na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=nhO_7PM4MJk