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Odisseias brasileiras

22 de julho de 2021

Por Laura Rossetti (*)

O Sempre Um Papo de quarta-feira, 21 de julho de 2021, às 19h, contou com a presença do escritor Itamar Vieira Junior, que ganhou notoriedade dentro da literatura contemporânea brasileira após a publicação de “Torto Arado” (Todavia), livro vencedor dos prêmios LeYa, em 2018, Oceanos e Jabuti, em 2020. No bate-papo com a jornalista Jozane Faleiro, o autor falou sobre seu novo livro, “Doramar ou a Odisseia: Histórias” (Todavia), lançado em junho deste ano.

Durante a conversa, Itamar disse que ainda criança se interessou pela literatura. Ele se lembra que, logo que aprendeu a ler, ficou deslumbrado com a capacidade de desvendar o que estava escrito nos objetos à sua volta, como placas e letreiros. A leitura, por sua vez, levou-o a praticar a escrita. “Eu comecei a ler e, automaticamente, passei a escrever. Foram muitos os livros que fizeram a minha cabeça na infância e, depois, na adolescência. Era algo indissociável: onde eu estava, eu lia e escrevia com regularidade”, conta.

O autor afirma que seu percurso com a literatura seguiu uma espécie de vida dupla. “Eu lembro que uma vez minha mãe encontrou as coisas que eu escrevia e ficou um tanto decepcionada, porque achava perda de tempo. Ela dizia: ‘Você deveria estar estudando, não escrevendo essas bobagens’”, diz. Depois desse episódio, Itamar passou anos sem mostrar seus registros às pessoas, até o momento de publicar seu primeiro livro, “Dias”, em 2012. Mesmo assim, ele  diz não ter faltado apoio por parte de seus pais, que o presentearam com uma máquina de escrever e livros. “(Minha escrita) era algo que eles incentivavam, embora não fosse desejável como profissão”.

Ainda em sua adolescência, Itamar pensou no enredo de “Torto Arado”: a história das irmãs Bibiana e Belonísia e sua relação com o pai e com a terra. “Ainda não era uma história com o nome dessas personagens. Ela ganhou densidade e profundidade ao longo dos anos, porque fui encontrando realidades que aparecem na narrativa do livro”, afirma. A ideia do enredo foi motivada pelo contato que o autor teve com obras de grandes escritores no ensino médio. Nessa época, ele teve aulas sobre a literatura brasileira no século XX e acabou conhecendo a admirando Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado, Érico Veríssimo, entre tantos outros.

Assim como “Torto Arado”, o livro “Doramar ou a Odisseia: Histórias” aborda a sociedade brasileira e a multiplicidade cultural do país. A obra é um compilado de 12 contos, sendo cinco inéditos. O restante já havia sido publicado anteriormente no livro “A Oração Do Carrasco” (Mondrongo), de 2017. Itamar revelou que o título de seu novo livro remete à ideia de que a nossa existência é uma viagem repleta de aventuras e acontecimentos inesperados. “A vida é uma odisseia pessoal, e, nessa jornada, a gente não precisa se lançar ao mar como (o personagem) Ulisses, de Homero. (…) O mar é a nossa vida, essa jornada imensa nos lugares mais improváveis”, explica.

Mesmo se deparando com imprevistos e situações hostis, as personagens do livro não se contentam com a destinação imposta a elas por sua condição social e pelo contexto em que vivem. Para exemplificar, o autor cita o conto intitulado “Alma”, que foi, segundo ele, baseado na história real de uma “mulher escravizada que deixa o cativeiro em Salvador e empreende sua odisseia até o sertão da Bahia, procurando um lugar onde ela pudesse viver livre”.

Outro conto também baseado em fatos reais é o “Manto da Apresentação“, que trata dos delírios místicos do artista plástico brasileiro Arthur Bispo do Rosário. “Eu tenho essa fascinação particular pela vida e obra do Arthur e eu tentei emular o que acontecia na mente daquele artista imenso, as vozes que ele escutava”, conta Itamar. Ele afirma lhe causar revolta o fato de terem mantido esse incrível artista, durante grande parte de sua vida, em um hospital psiquiátrico. “O Bispo do Rosário fazia a arte dele com as coisas mais improváveis. Ele não tinha pincel, nem papel. Ele recolhia o lixo do próprio hospital, ele descosia as vestes para ter linha para bordar. É algo extraordinário, não tem como não se encantar com essa história”, acrescenta o autor.       

Esta foi uma edição do #SempreUmPapoEmCasa, com acesso gratuito e tradução simultânea em Libras. Acesse a gravação completa da conversa nas redes sociais do Sempre Um Papo: YouTube, Instagram e Facebook.

*Estagiária sob a supervisão da jornalista Jozane Faleiro

Frases

“Toda ficção, no fundo, tem um pé na realidade. Ela nasce do nosso confronto com o mundo, dessa fricção entre o nosso eu e o eu do outro”. – Itamar Vieira Junior

“O interessante da literatura é a possibilidade da gente transcender, encontrar personagens e histórias que não fazem parte do nosso cotidiano. É um lugar de alteridade, onde a gente consegue sentir empatia”. –  Itamar Vieira Junior

“São poucas as expressões artísticas que possibilitam uma imersão tão profunda na humanidade. E a literatura nos possibilita isso.” –  Itamar Vieira Junior

“A literatura é uma expressão, por excelência, humana. Ela nos possibilita a conexão com o outro.” –  Itamar Vieira Junior