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Por uma pandemia de alteridade e sinergia das línguas em português

10 de novembro de 2020

Fliaraxa

O desenlace da eleição americana, com a derrota de Donald Trump, vai acelerar ainda mais as mudanças do mundo recente, além do que já fez a digitalização e a Covid-19. Pelo poder do contraste com esses anos de barbárie, insensatez e corrosão dos princípios da democracia, é palpável o alívio, em diversas partes do planeta, do retorno da maior potência mundial à civilização. Mas para onde estamos retornando se o mundo pré-pandemia do coronavírus não existe mais, quanto mais aquele em que vivíamos quando Barack Obama era o presidente da maior potência do planeta?

A resposta à pergunta é, na verdade, o instigante desafio que temos pela frente. Por melhor que seja em relação aos quatro últimos anos, o mundo desse passado recente foi o que, por suas contradições e desprezo pela vida humana, desembocou em governos arbitrários em vários países. Concentração de riqueza, opressão das minorias, racismos e destruição do meio ambiente são algumas das mazelas daquela época, radicalizadas por governantes recentes da ultra-direita. 

A importante questão sobre o mundo a que queremos chegar não exige apenas respostas eleitorais como a que acompanhamos nos Estados Unidos. Ela é profunda e desafiadora porque diz respeito aos valores e princípios que têm governado a humanidade. Convida a uma grande transformação que só a cultura e a arte podem realizar porque, no início, ela nasce dentro das pessoas e só depois chega aos modelos de governança. No Festival de Literatura de Araxá 2020, que deveria ter terminado em 1º de novembro último, o interesse pelo tema já estava colocado desde o planejamento do Festival. As sucessivas mesas de conversa se debruçaram sobre ela a partir de uma frase de José Saramago: “Não há uma língua portuguesa, há línguas em português”.

Transformada em lema do Fliaraxá 2020, a frase inspirou o manifesto “Pela Sinergia das Línguas em Português”, sobre a necessidade de criar um novo lugar de encontro da literatura produzida nos nove países que falam esse mesmo idioma. Um lugar em que as diferenças encontrem bem mais que tolerância. Não basta mais ouvir o outro, mas aprender com ele, compartilhar ideias e experiências, criar o mundo novo por este caminho de troca, sem ter uma língua-mãe que unifique, mas línguas em português que, trazendo a diversidade por meio de um código comum, ofereçam a possibilidade de uma construção conjunta. Precisamos de uma pandemia de alteridade, expressão que ficou muito mais fácil de entender pelo poder de contraste com os anos Trump e seus aliados mundo afora. É o oposto do que eles estão fazendo.

“Pretendemos reunir um conjunto de escritores, músicos, actores, filósofos, cientistas, historiadores, produtores e pensadores que estejam dispostos a participar desta vontade de descoberta do outro, o outro que fala a mesma língua”, diz o Manifesto, em linha com a efervescência dos debates. Por isso, o Fliaraxá não terminou na data prevista, mas se estenderá até 8 de dezembro e talvez por muito tempo mais. Para que essa benfazeja pandemia de alteridade não se perca em discursos e intenções, mas se transforme em arte e possa, assim, inspirar pessoas.