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Sobre Uma Foto, sobre a Ética e sobre como mudar um País.

30 de dezembro de 2020

Não se trata só dos direitos autorais.

Não se trata só do uso indevido da imagem.

Não se trata só da inadequação espaço / tempo.

Não se trata só de vilania, de maldade, de usurpação.

A palavra central é ética – no caso, a falta de ética.

O uso da foto de Evandro Teixeira para este fim perverso desenha um cenário de barbárie intolerável. A foto é ícone da brutalidade com a qual a ditadura tratava os manifestantes. Vi cenas iguais a esta inúmeras vezes, em Belo Horizonte, durante a Ditadura.

Me solidarizo com o fotógrafo Evandro Teixeira e corroboro a atitude do Instituto Moreira Salles, em seu legítimo repúdio.

Isso tem que acabar neste País.

A.

Abaixo, o comunicado oficial do IMS:

O Instituto Moreira Salles, na qualidade de titular dos direitos patrimoniais de autor desta obra de autoria do fotógrafo Evandro Teixeira, vem manifestar seu repúdio quanto ao uso sem autorização da referida obra, bem como à violação do direito moral do autor.

O IMS informa que está tomando as providências necessárias para que a imagem produzida a partir da obra, deturpada em seu sentido e intenção originais, seja imediatamente retirada das plataformas e meios digitais em que está sendo divulgada. A imagem original de Evandro Teixeira foi usada numa fotomontagem não autorizada publicada nas redes sociais por um apoiador do presidente Jair Bolsonaro. Nela, o presidente aparece, de uniforme de futebol, tomando a frente dos soldados da PM para chutar e agredir o manifestante em fuga.

A foto de Evandro Teixeira, que na época trabalhava no Jornal do Brasil, mostra um estudante sendo perseguido por policiais na Cinelândia, no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1968, em ato contra a ditadura militar. Nesse dia, que depois ficou conhecido como “sexta-feira sangrenta”, a repressão da polícia militar levou à morte 28 pessoas.

Evandro Teixeira é um dos mais renomados fotojornalistas do Brasil e sua obra completa, de mais de 150 mil imagens, integra hoje o acervo do Instituto Moreira Salles. A preservação de seu legado como artista e fotógrafo é nosso dever absoluto, seja em relação à integridade de seu trabalho autoral como também ao significado histórico e cultural de sua obra para o país.

Imagem: Caça ao estudante. Sexta-feira Sangrenta. Rio de Janeiro, 1968. Fotografia de Evandro Teixeira/Acervo IMS