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Um destino literário

28 de setembro de 2021

Por Laura Rossetti (*)

O Sempre Um Papo Itabira recebeu a escritora mineira Conceição Evaristo para falar sobre o amor aos livros, no dia 27 de setembro de 2021. A conversa foi mediada por Afonso Borges, que estava ao vivo direto da Casa de Drummond, em Itabira. A live foi transmitida às 19h pelas redes sociais do Sempre Um Papo, projeto que, em 2021, comemora 35 anos de existência.

“Eu tenho dito que o destino da literatura me persegue”. Com esta frase, Conceição Evaristo começou a contar sua história de encantamento com a leitura e a escrita. Já na infância, Conceição teve contato com a literatura falada, porque nasceu em uma família em que, segundo a autora, “se começava a ler através da palavra oral, dos gestos e da contação de histórias”.

O ambiente familiar também despertou na autora a curiosidade pela palavra escrita. “Tanto minha mãe quanto minha tia tinham muita curiosidade em relação à escrita e à leitura. Então, o material impresso também chegava às nossas casas: muitos restos de revistas, restos de livros que minha mãe achava na rua ou ganhava das patroas”, conta. Conceição ficou ainda mais próxima dos livros quando uma de suas tias foi trabalhar na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, localizada próxima à Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.

Além do lugar em que sua tia trabalhava, a autora conta que, quando jovem, costumava frequentar bibliotecas em escolas particulares. “Eu era muito intrometida, sem discernimento nenhum!”, brinca Conceição, lembrando-se de que tinha o hábito de ir a colégios particulares e pedir às irmãs religiosas que a deixassem entrar na biblioteca para ler. “E, normalmente, elas deixavam”, acrescenta.

Alguns dos primeiros livros que Conceição se lembra de ter lido foram “A Bonequinha Preta” e “O Bonequinho Doce”, da mineira Alaíde Lisboa, que, além de escritora foi pedagoga, jornalista e a primeira mulher vereadora de Belo Horizonte, em 1950.

Durante a conversa, também foi abordada a obra de Carlos Drummond de Andrade, que teve grande influência na escrita de Conceição. A autora conta que conheceu e se apaixonou pela obra dele nos recitais de poesia que frequentava em Belo Horizonte, ainda antes de entrar na faculdade. “Estávamos muito jovens e sem dinheiro para grandes coisas, para a farra”, lembra ela, contando que se reunia com seus amigos para recitar poemas de Drummond, de Vinicius de Moraes, músicas de Milton Nascimento, entre tantos outros artistas brasileiros.

Conceição faz ainda um paralelo da sua trajetória com a de Drummond, já que os dois deixaram a cidade onde nasceram em Minas Gerais e se mudaram para o Rio de Janeiro. Particularmente, a autora se identifica muito com dois versinhos do poeta itabirano que dizem “Itabira é apenas uma fotografia na parede/ Mas como dói!“. Ela afirma sentir esta mesma saudade em relação à sua cidade natal, Belo Horizonte. “É interessante que (…) essa marca de mineiridade nos poemas de Drummond não se dissipam”, aponta.

Ao final, Conceição falou um pouco sobre como tem passado o tempo de pandemia de Covid-19. Ela conta que ficou muito mal nos primeiros momentos da pandemia, mas que com o passar dos meses foi aprendendo a lidar melhor com a quantidade de trabalho que estava fazendo em casa, para não ficar sobrecarregada. Sua produção literária, no entanto, segue prejudicada por este período. “Trabalhei contos que me pediram, mas os meus romances, minha antologia de contos e minha antologia de poemas estão todos parados”, afirma a autora. Acesse a gravação da conversa, que contou com tradução simultânea em Libras, no YouTube, Instagram e Facebook do Sempre Um Papo.

* Estagiária sob a supervisão da jornalista Jozane Faleiro

Frases:

“(É preciso) acabar também com esse imaginário que os escritores e escritoras têm que nascer em classes privilegiadas. As classes populares apresentam também as suas potências em todos os campos da arte.” – Conceição Evaristo

“A gente fala que sai de Minas Gerais, mas Minas não sai da gente” – Conceição Evaristo

“Eu sabia que eu tinha 70 anos, mas não sabia que eu era idosa” – Conceição Evaristo

“Nesses tempos tão áridos, se não fosse a arte a nos convocar, acho que não suportaríamos” – Conceição Evaristo