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Um pedido por ternura

22 de setembro de 2021

Por Laura Rossetti (*)

O convidado para o #SempreUmPapoEmCasa de terça-feira, 21 de setembro, foi Valter Hugo Mãe, um dos mais destacados escritores em língua portuguesa da atualidade. A conversa com o jornalista Afonso Borges, idealizador e criador do projeto, girou em torno do livro “Serei Sempre O Teu Abrigo” (Ed. Biblioteca Azul), o mais recente do autor. A transmissão do bate-papo, que contou com tradução simultânea em Libras, aconteceu às 20h através das redes sociais do Sempre Um Papo.

Valter Hugo Mãe conta que escreveu “Serei Sempre O Teu Abrigo” no próprio celular enquanto viajava pela América do Norte. “Esse texto surgiu em um ônibus que eu tive que pegar, por longas horas, para chegar às Cataratas do Niágara. (…) Foi uma espécie de grito de ternura, de apelo e súplica por ternura em um ambiente em que eu me sentia um bocado hostilizado”, afirma o autor, em referência ao fato de ter sido mal recebido em alguns lugares nos Estados Unidos por aparentar ser de origem árabe. Muitas vezes, movidas pelo preconceito, as pessoas associaram sua aparência ao terrorismo.

O livro reúne contos que narram, de forma profundamente poética, a afetuosidade dos avós, a partir do ponto de vista de um neto. A obra também contém ilustrações feitos por Valter Hugo, que afirma desenhar para estar mais próximo de suas ideias e sentimentos, de modo que isso contribua com sua produção literária. “Quando eu desenho, eu sinto que eu não fui para longe do texto; eu estou ali bem perto do livro, à disposição do livro para quando ele quiser e tiver que acontecer”, diz.

Por exemplo, Valter Hugo conta que desenhou diversas vezes os personagens principais de seu novo romance, “Honra”, previsto para ser publicado em novembro no Brasil. “O ‘Honra’ e o ‘Meio Da Noite’ são os dois meninos centrais do livro. Por vezes, olhando os desenhos, eu entendi coisas sobre eles que não entenderia sem olhar, sem ter desenhado primeiro. Eu achei que eles teriam que ser de determinadas maneiras porque os desenhos me pareceram indicar algumas sensibilidades específicas”, afirma.

O bate-papo também abordou as mudanças provocadas pela pandemia no mundo, como a rapidez com que o tempo parece transcorrer, os avanços tecnológicos e as mudanças no relacionamento entre as pessoas. Para Valter Hugo, embora as relações afetivas tenham se transformado, são ainda elas que validam a vida dos seres humanos. ”Eu creio que, de fato, o projeto da humanidade é uma exigência de cuidado para com os outros, as outras espécies, para com o mundo. (…) O grande desafio é saber que vamos morrer e ainda assim termos uma conduta que toda ela signifique vida e proponha vida”, diz, completando que isto só pode ser alcançado através do amor.

Valter Hugo comentou ainda sobre “Contra Mim”, livro autobiográfico publicado em 2020 pela Editora Biblioteca Azul. O autor revela que escrever o livro foi sua estratégia de sobrevivência nos primeiros momentos da pandemia. “’Contra Mim’ é a história da minha infância com aquilo que eu me lembro, com os erros de que me lembro, talvez com algumas ficções, fixações e obsessões. É em livro que me deu muito prazer em escrever”, conta.

Além dos livros mencionados, Valter Hugo Mãe é autor de mais de 30 obras, incluindo romances, literatura infantil, contos e poesia. Confira a gravação completa da conversa no YouTube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

*Estagiária sob a supervisão da jornalista Jozane Faleiro

Frases

“O desenho surge de um gesto caligráfico, (…) ele é uma forma de eu ficar muito perto de escrever” – Valter Hugo Mãe

“Há qualquer coisa na obsolescência deste tempo, em uma precipitação para que as coisas caduquem, que me provoca a impressão de ser tão de outro tempo que muito do que acontece parece ser uma rejeição da minha pessoa”. – Valer Hugo Mãe

“Me preocupa muito esta versão empobrecida da nossa mente em favor desta memória virtual que, sabemos bem, tantas vezes falha”. – Valter Hugo Mãe “Se não for pela afetividade, por uma amorosidade, o que validaria a nossa sobrevivência?” – Valter Hugo Mãe