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Uma viagem às memórias

17 de agosto de 2021

Por Laura Rossetti (*)

O escritor carioca João Paulo Cuenca participou do #SempreUmPapoEmCasa de segunda-feira, 16 de agosto de 2021, para lançar o livro “Qualquer Lugar Menos Agora: Crônicas De Viagem Para Tempos De Quarentena” (Record). Durante a live, que contou com tradução em Libras, o autor também comentou seus processos criativos, discorreu sobre as características da crônica brasileira e falou dos seus novos projetos. A gravação da conversa está disponível no YouTube, Instagram e Facebook do Sempre Um Papo

João Paulo Cuenca conta que “Qualquer Lugar Menos Agora” é um livro que ele já pensava em escrever há 10 anos. O que o levou a selecionar o material que iria para o livro foi o começo da pandemia do coronavírus, em 2020. “Eu montei esse livro (…) em um momento que a gente não sabia mais quando ia viajar, ou se ia viajar, ou como seria viajar de novo. Então, foi emocionalmente bastante importante para mim, porque também é uma espécie de revisita dos últimos 15 anos da minha vida, já que eu passei boa parte desse tempo viajando”, afirma o autor.

O livro reúne uma série de crônicas que narram aventuras, episódios peculiares – e até mesmo perigosos – que ele experienciou em suas viagens. É o caso, por exemplo, de uma briga em que o autor se envolveu quando estava em Macau, na China. Ao mesmo tempo, há também crônicas mais leves e calmas, como a que narra um dia em que Cuenca, passeando pela cidade da Praia, em Cabo Verde, encontra uma boate em que as pessoas dançavam música lenta – um hábito que, segundo o autor, infelizmente foi perdido no Brasil.

Cuenca começou a escrever crônicas para jornais aos 24 anos, quando foi convidado para trabalhar no Tribuna da Imprensa. O autor explica que os cronistas são, tradicionalmente, vistos a partir da figura do flâneur – termo em francês que designa aquele que é observador, errante, que caminha pela cidade atento aos detalhes. Porém, Cuenca faz um contraponto a essa ideia ao pensar sobre as crônicas veiculadas nos jornais atualmente. “O espaço da crônica no jornal passou a ser ocupado por colunismo de opinião, textos opinativos sobre a novela, política, (entre outros assuntos)”, critica o autor, afirmando que o que se vê hoje em dia no jornalismo é um grande “mercado de opiniões”.

Perguntado sobre como tem sido escrever na pandemia, tendo em vista a impossibilidade de sair de casa para observar a rua e os acontecimentos cotidianos, o autor afirma ser um desafio, já que os escritores se alimentam dessas experiências. “Dá muita saudade, não só de estar fora de casa, na sua cidade, mas dessa disponibilidade, dessa abertura para o desconhecido, para a aventura e a exploração”, diz.

Apesar de já ter visitado e se encantado com centenas de cidades ao redor do mundo, Cuenca afirma não abrir mão de São Paulo, onde ele mora atualmente. “Eu fiquei apaixonado pela cidade (…), pela multiplicidade de gente, de cenas, de vetores, de arte, de comportamento, de comida. A cena de música eletrônica underground de São Paulo é mais interessante e maior que a de Berlim”, diz. Ele afirma ainda não ser difícil encontrar inspiração para escrever nessa cidade, onde é possível se surpreender a cada esquina.

Além de livros de crônicas, Cuenca é autor de romances como “O Dia Mastroianni” (Agir), de 2007; “O Único Final Feliz Para Uma História De Amor É Um Acidente” (Companhia das Letras), de 2010; e “Descobri Que Estava Morto” (Tusquets), de 2016. Atualmente, ele está escrevendo mais um romance, previsto para ser lançado em 2022.

* Estagiária sob a supervisão da jornalista Jozane Faleiro

Frases:

“A gente escreve livro que a gente quer ler” – João Paulo Cuenca

“A crônica é uma espécie de pequena bolha que, em uma página, te transporta para essa polaroid do cotidiano” – João Paulo Cuenca