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Vozes Insubmissas

23 de março de 2021

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Pós Fliaraxá começou sua programação trazendo discussões importantes para o período que estamos vivenciando, sobre os movimentos feminista e negro e como eles se inserem na arte. A primeira convidada foi a cantora e atriz Maíra Baldaia para falar sobre o tema “A transversalidade entre música e literatura”. A edição complementar ao nono Fliaraxá (Festival Literário de Araxá) está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pela editora Simone Paulino, no dia 22 de março de 2021, sendo transmitida pelo Youtube do Fliaraxá.

Além de atriz, modelo comercial e diretora de comunicação, Maíra Baldaia se apresenta como cantautora. “O termo cantautora surgiu na Espanha para falar desse lugar de cantora e compositora, de como essas coisas estão ligadas. É o trabalho de falar e de cantar aquilo que se sente, que faz sentido, sob a ótica do meu olhar de mulher contemporânea, negra e tudo que eu passo. Eu gosto do termo e acolhi ele na minha trajetória porque faz sentido para mim”, disse ela. Maíra integra o grupo “Tambor Mineiro”, de músicas inspiradas no Congado, criado pelo multiartista Maurício Tizumba. “São os instrumentos que compõem as guardas de congado: ‘caixa de folia’ ou tambor mineiro, patangome, que são caixinhas com lágrimas de Nossa Senhora, e as gungas, que são instrumentos que colocam nos pés, ressignificando grilhões, transformando a dança em música, se toca dançando”.

A arte de Baldaia, principalmente no que se refere a sua veia poética, é muito inspirada por Carlos Drummond de Andrade, pois, assim como o poeta, a cidade natal de Maíra é Itabira (MG). “Ter a oportunidade de crescer, bebendo de um poeta tão multifacetado e rico como o Drummond é inspirador. Foi essencial para a minha formação, para o meu crescimento, para eu chegar até aqui e para eu querer conhecer mais outros poetas. Eu só agradeço por ser de Itabira porque é onde está a minha raiz. Minha revolução começa ali no meu quintal”.

Outra fonte de inspiração muito grande para a cantautora é Conceição Evaristo, inclusive a canção “Insubmissa” de Maíra Baldaia, em parceria com a Thalita Barreto, é inspirada no livro ‘Vozes-Mulheres de Conceição’. “Essa canção nasce do meu TCC, na Escola de Belas Artes da UFMG, em dramaturgia negra e feminina, com orientação do professor e doutor Marcos Alexandre, que também pesquisa a obra de Conceição Evaristo. A canção Insubmissa, em si, tem inspiração muito forte no livro ‘Vozes-Mulheres’, que traz 13 protagonistas muito fortes e inspiradoras, e no poema que nomeia a obra. Essas coisas me atravessaram e eu trouxe para o meu dia-a-dia, não tinha como não desaguar na minha composição”.

Como trabalho de conclusão do curso de Teatro, Maíra realizou um espetáculo, na qual escreveu a dramaturgia e as músicas, que trazia as vivências femininas abordadas por Conceição e atravessadas pelas energias das ayabás, que são orixás femininas. “Eu trouxe histórias de mulheres da minha família, histórias minhas e histórias de mulheres inventadas. Insubmissa é a música principal e acho que ela resume tudo que esse espetáculo queria dizer, sobre uma mulher que é diversa, que, assim como no poema da Conceição, passou por várias fases na sua vida. Ela começa precisando ainda de um par, se escorando em uma estrutura da branquitude e dos contos de fada e depois ela mesma se salva, ela é a sua própria heroína, ela se descobre. É um lugar de mulheres negras descobrirem sua potência, sua força, sua independência”.

“Insubmissa’ foi lançada em 2016 no disco de estreia de Maíra. “Ela é sempre muito comentada, é muito legal a relação do público com essa música e eu fico muito feliz porque ela veio muito da minha alma, que bebe dessas histórias tantas, bebe da Conceição, bebe das mulheres do meu dia-a-dia, bebe das minhas ancestrais. Isso tudo junto é a minha verdade. É a minha voz”, explicou a cantautora.

Para Maíra Baldaia é uma experiência única estar entre mulheres e é importante utilizar um pouco de tudo que vivenciamos porque a convivência com mulheres ensina muito. “Não faz sentido se a arte não for agente de transformação. E as minhas músicas representam uma retomada da mulher, a mulher retomando a própria vida, falando por si e falo isso de uma forma que toque as pessoas. Acho que a arte vem com uma ludicidade que transforma em entrelinhas, pelos poros vai captando as pessoas que às vezes não entenderiam determinada mensagem dita de outra forma. A arte faz esse resgate”.

A sociedade, segundo Maíra, é patriarcal e racista , por isso, somos educados dessa maneira, mas a palavra é capaz de quebrar esse padrão. “A minha arma é a palavra. É uma arma doce a palavra, que acolhe. Então, poder colocar isso tudo para fora de uma forma lúdica, uma forma com uma mensagem que toca as pessoas que emociona, que leva algo bom, sobretudo para as mulheres, não tem preço”.

Acompanhe a conversa na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=ZRFLmEL22C8&t=287s

FRASES MAÍRA BALDAIA:
“Somos operários da arte”. – Maíra Baldaia, Pós Fliaraxá, 22/03/2021

“Eu só agradeço por ser de Itabira porque é onde está a minha raiz e eu bebo de lá. Minha revolução começa ali no meu quintal”. – Maíra Baldaia, Pós Fliaraxá, 22/03/2021

“Para mim não faz sentido se a arte não for um agente de transformação”. – Maíra Baldaia, Pós Fliaraxá, 22/03/2021

“São muitas mulheres, não existe um tipo de mulher”. – Maíra Baldaia, Pós Fliaraxá, 22/03/2021

“Para mim não faz sentido se a arte não for agente de transformação”. – Maíra Baldaia, Pós Fliaraxá, 22/03/2021

“Acho que a arte vem com uma ludicidade que transforma em entrelinhas, pelos poros, vai captando as pessoas que, às vezes, não entenderiam determinada mensagem dita de outra forma”. – Maíra Baldaia, Pós Fliaraxá, 22/03/2021

“É uma experiência única estar entre mulheres”. – Maíra Baldaia, Pós Fliaraxá, 22/03/2021

“A minha arma é a palavra. É uma arma doce a palavra que acolhe”. – Maíra Baldaia, Pós Fliaraxá, 22/03/2021

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